Ulcerações Plantares no Pé Diabético: Pressão Plantar, Deformação Profunda dos Tecidos e Estratégias Preventivas
Resumo
A ulceração do pé diabético representa uma das complicações mais incapacitantes da diabetes mellitus e a principal causa de amputação não traumática do membro inferior. A sua patogénese é biomecânica antes de ser clínica: a neuropatia periférica suprime a resposta protetora à dor, enquanto deformidades estruturais progressivas concentram a carga mecânica sobre zonas anatomicamente vulneráveis, iniciando lesões tissulares profundas que podem tornar-se irreversíveis antes de qualquer sinal superficial. Mapear sistematicamente os fatores biomecânicos associados à ulceração plantar em pessoas com diabetes mellitus e sintetizar a evidência disponível sobre limiares de pressão plantar, deformação profunda dos tecidos, distribuição anatómica das cargas e estratégias preventivas, nomeadamente o off-loading e a monitorização térmica. Revisão de âmbito (scoping review) conduzida segundo o quadro metodológico de Arksey e O'Malley, atualizado pelo Joanna Briggs Institute, com reporte em conformidade com a lista de verificação PRISMA-ScR. Foram pesquisadas três bases de dados — PubMed/MEDLINE (n=18), SCOPUS (n=13) e Web of Science (n=10) — cobrindo publicações de janeiro de 2009 a março de 2025. Após deduplicação e triagem de elegibilidade, 16 estudos foram incluídos na síntese final. A deformação interna dos tecidos junto às proeminências ósseas pode atingir valores entre 70% e 96,8%, mesmo com alterações cutâneas mínimas, evidenciando a insuficiência da avaliação exclusivamente visual. O antepé concentrou 57% dos picos máximos de pressão plantar. Um pico de pressão plantar de 88,06 ± 7,4 kPa constitui um limiar de referência clinicamente validado para o risco ulcerativo. Pressões intra-calçado superiores a 200 kPa representam sobrecarga crítica, enquanto o tecido muscular sofre dano estrutural com cargas sustentadas acima de 32 ± 3,1 kPa. A monitorização térmica plantar diária reduz o risco de nova ulceração em aproximadamente 49% em populações de alto risco. A articulação entre podobarometria, monitorização térmica plantar e estratégias de off-loading baseadas na evidência constitui um referencial preventivo eficaz para identificar o risco ulcerativo antes da rotura tissular. Investigação futura deverá explorar modelos tridimensionais de elementos finitos personalizados, sensores vestíveis de monitorização contínua e modelos preditivos sustentados em inteligência artificial.
Referências
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